Estávamos eu e dois amigos indo para uma festa de formatura e paramos, como sempre, em um boteco para comprar aquela vodka com refri básica. Fomos esperar nosso ônibus na parada e, papo vai, papo vem, de repente nos deparamos com um sujeito, posso dizer, "mal encarado" que veio com aquele papo conhecido de que está passando necessidade e, como todos sabemos, precisa de um trocado. Este, ao menos, nos contou a história fazendo questão de fazê-la parecer verídica e ele, autêntico. Nos disse que tinha sido libertado do presídio central haviam dois dias por bom comportamento, que havia pego um ano e quatro meses por furto, que tinha vindo de Passo Fundo buscando uma vida melhor e que nada tinha encontrado de bom, somente a necessidade que o levou a tentativa de roubar duas jaquetas de uma loja.
Então, eu, sempre solidário, coloquei as mãos nos bolsos para ver se havia deixado, de uma outra data, alguma moeda perdida porque, claro, tinha acreditado na história cegamente, mas, apesar disso, não tinha nenhum tostão furado. Vi que meus dois amigos também se sensibilizaram e fizeram o mesmo(de certo, a história era verdadeira e eu, não tão ingênuo como sempre presumo), e um deles, bondosamente, entregou ao homem(não mais sujeito, por causa de sua educação) algumas moedas que sobraram na compra dos copos para a bebida, e ao mesmo tempo, perguntou-lhe sobre os motivos já aqui citados que o levaram a ser preso.
O nome do, agora, coitado era Lurinelson, outro reflexo da pobre vida que o mesmo levava no interior. Ele nos contou que, realmente, o que o tinha levado a esse ato de desespero, fora realmente a pobreza e a busca de uma vida melhor na capital. Doce sonho, gigantesca ilusão!
Oferecemos um copo do nosso drinque e resolvemos continuar conversando com o homem até que nosso ônibus chegasse, o que deu tempo de conhecê-lo melhor. Ele nos contou das horríveis condições para sua sub-vida no presídio central, citado por ele como "o carandirú gaúcho", por ser o presídio mais lotado da América Latina, e que a cevada servida como almoço para os detentos era pior do que a comida achada por ele no lixo desde que saiu.
Fico indignado com coisas desse tipo. Um local construído para reabilitar pessoas que saíram da linha que está em pior estado que a vida destes antes de serem presos. Outra coisa que me deparei, de novo, foi o preconceito que todos nós temos com este tipo de pessoa, as excluídas da sociedade, ex-presidiários, drogados, deficientes e doentes, por exemplo. Posso ainda não ter perdido totalmente essa mania de pré-julgar as pessoas, mas com certeza, graças às oportunidades que a vida têm me dado, eu estou quase lá.
O contrário foi ter lido, como acabei de ler, na Zero Hora, no artigo escrito pela Carmen Hein de Campos, a história de um um garoto de 18 anos que morreu neste mesmo presídio(refletindo com a história do Lurinelson) por falta de atendimento médico. Porém, o frenesí da história está no fato de que, para a mãe foi dito por um agente penitenciário, como poderia ter sido dito por qualquer um, como escreveu a autora sabiamente, refletindo o senso comum da sociedade em torno dos presos, referindo-se ao presidiário, ao filho desta mãe, que " Preso é preso", ou seja, este ser humano que errou e está pagando pelos mesmos, não tem direito ao direito básico da saúde. Que vergonha!